O jornalismo econômico

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A informação econômica circula desde as mais primitivas formas de jornalismo existentes no mundo. Nos séculos XVI e XVII, famílias ricas da Europa costumavam contratar correspondentes para que lhes redigissem cartas periódicas sobre a economia e os negócios de cada canto do continente. Alguns jornais foram criados, nos séculos XVIII e XIX, exatamente para permitir que empreendedores informassem à comunidade os produtos ou serviços que tinham para vender. Desde então, a cada onda de desenvolvimento econômico de um país, novos veículos dedicados a esse tipo de cobertura apareceram. Foi assim nos Estados Unidos dos tempos da Revolução Industrial, onde jornais pioneiros, como o New York Herald, passaram a dedicar seções específicas aos acontecimentos econômicos já nos idos de 1800 e poucos.(1)

Foi assim também no Brasil – mas só muito tempo depois. Aqui, “o jornalismo econômico tem a mesma idade da imprensa”, segundo Suely Caldas. Não nasceu junto com a ditadura militar, como se costuma alegar, simplesmente porque “não há registro de um jornal sem notícias de fatos econômicos”. Mas foi, sim, a partir de 1964 que a cobertura ganhou importância, prestígio e editorias próprias. O colunismo analítico que marcava os textos antes passou a dar espaço à pauta mais factual, focada em acompanhar o chamado “milagre econômico” – ainda que o viés “oficialesco” estivesse presente nas reportagens, dada a censura imposta pelo regime.(2)(3)(4) Surgiram, nessa época, publicações de prestígio, que se mantêm relevantes ainda hoje – caso da revista Exame. E se consolidou a presença de outras, que viriam a marcar a história da imprensa brasileira, mas não resistiram ao passar do tempo – como a finada Gazeta Mercantil.

De lá para o momento atual do jornalismo econômico brasileiro – descrito por Paula Puliti como de financeirização do noticiário – foi um jato. Pululam novas publicações, e na maioria predominam as fontes e os temas de interesse do mercado financeiro.(5) É o sistema capitalista, consolidado que está, se expressando de maneira cada vez mais evidente nas páginas econômicas, impressas e virtuais. “Matérias sobre estratégias mercadológicas de empresas concorrentes, competitividade, mobilidade do capital industrial, fusões e aquisições, como alcançar sucesso na empresa e aperfeiçoamento profissional, mercados financeiros e mercados de capitais, reações dos mercados, tendências, informações sobre investimentos e riscos”, diz Eun Yung Park, “atendem aos anseios do indivíduo como pessoa física e como profissional da sociedade globalizada”.(6)

Dentro do jornalismo econômico, há modalidades diferentes de cobertura – e, embora todas tenham a mesma raiz, seus temas e formatos podem ser completamente diferentes. Vejamos uma classificação proposta com base nos estudos de Bernardo Kucinscki e Sidnei Basile:(7)(8)

  • Há a cobertura de políticas de governo e questões macroeconômicas. É aí que saem as reportagens sobre as contas nacionais, a inflação, o rumo dos juros, o nível de emprego, o crescimento do país, o endividamento público. E cada uma dessas variáveis se relaciona, de alguma forma, com as outras, rendendo efeitos que devem ser explicados pelos jornalistas.
  • Também há a cobertura de negócios e empresas. São reportagens com uma pegada microeconômica – ou seja, nelas importam menos as grandes variáveis de que falamos logo acima, e mais os agentes econômicos (sejam os empresários, os trabalhadores ou os consumidores) interagindo entre si em busca de algo em comum, que é o lucro. Entram aqui os resultados das empresas, o desenvolvimento de um setor em especial e as histórias de empresários. (O tema é detalhado na seção Negócios e Empresas.)
  • Resta ainda a porção dedicada ao jornalismo financeiro, que exige dedicação especial dos profissionais da imprensa. Isso porque ele abarca operações que podem ser muito sofisticadas e que, portanto, merecem ser traduzidas propriamente – ou será que uma matéria sobre swaps, derivativos ou operações estruturadas, sem a devida contextualização, seria compreensível para o grande público? Essa cobertura abarca assuntos como o desempenho da bolsa de valores, as captações de recursos feitas pelas empresas no mercado e os investimentos pessoais – que só ganham um nível de relevância compatível com a relevância que os fatos financeiros efetivamente carregam quando são bem explicados. (O tema é detalhado na seção Finanças e Investimentos Pessoais.)

Jornalistas dos três segmentos não raro se digladiam sobre qual importa mais: os focados em macroeconomia acham os outros rasos e pouco relevantes, enquanto os que cobrem assuntos microeconômicos veem os primeiros como burocráticos.(9) Em comum, redações de economia costumam ser altamente especializadas. Em Brasília, há repórteres que cobrem apenas o Ministério da Fazenda ou apenas o Banco Central – passam seus dias lá, muitas vezes pisando na sede das suas empresas apenas uma vez na semana (ou menos). Nas equipes de negócios e empresas, há jornalistas especializados em indústria automobilística, ou em mineração, ou em energia, ou qualquer outro segmento. Dependendo do porte, um veículo pode ter um repórter que, na maior parte do seu expediente, cubra uma única empresa – como a Petrobras, digamos. Nos veículos financeiros, há jornalistas que só escrevem sobre a bolsa ou apenas sobre o câmbio.

Antes de seguir para a próxima seção, pare e pense: com qual dessas subdivisões do jornalismo econômico você se identifica mais? O que gostaria de cobrir? Logo você descobrirá onde encontrar dados para dar vida a essa aspiração!


Siga adiante:
Os dados no jornalismo econômico

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