Para terminar: Precisamos falar sobre ética

O jornalismo de dados logo não será mais chamado assim. Será apenas jornalismo. A frase de Damian Radcliffe, da Universidade do Oregon, remete àquele básico que pode passar despercebido: jornalismo de dados é jornalismo, afinal de contas. Mexer com números não dá licença a ninguém para deixar de lado os fundamentos do bom trabalho jornalístico. Ainda é preciso apurar os assuntos de interesse do público de maneira equilibrada. Ainda é necessário confrontar as fontes de informação. Ainda é fundamental checar e rechecar, e procurar enxergar os vários lados da moeda. E ainda – na verdade, mais do que nunca – é preciso agir de acordo com os princípios éticos que regem a profissão dos jornalistas.

O jornalismo de dados, descreve Lucas Vieira de Araújo, é uma fronteira da profissão com desafios para superar e vantagens para conquistar. “A ética não está em nenhum desses campos porque é exercício inerente da profissão”, afirma. “Os profissionais de imprensa que se utilizam dos dados para produzir notícias têm obrigação, como qualquer outro jornalista, de zelar pela ética no exercício diário da profissão”.(1) Talvez isso seja ainda mais verdade na cobertura de economia. Parafraseando Bernardo Kucinski, uma das falácias – argumentos que parecem corretos, mas que levam a conclusões erradas – mais frequentes no debate econômico é justamente a falácia estatística. Não é difícil, afinal de contas, provar algo usando a estatística. “Escolhem-se dois pontos convenientes de uma série estatística para provar, por exemplo, que os preços agrícolas sofreram uma perda em seu poder de troca”, afirma. “Poderiam ser escolhidos dois outros pontos, não muito distantes daqueles, para provar exatamente o contrário”.(2)

Como o jornalismo de dados, descrito dessa forma, é uma prática relativamente recente, ainda faltam referências em que os jornalistas possam se apoiar. Os tradicionais manuais de redação foram desenvolvidos há anos (ou décadas), para dizer o mínimo. Somente a edição de 2017 do manual de redação da Associated Press, uma das maiores agências de notícias do mundo, passará a incluir melhores práticas em jornalismo de dados entre os seus conteúdos.(3) Não custa, então, lembrar de alguns trechos do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros que se aplicam especialmente bem ao trabalho com dados nas redações. Conforme destaca o documento, o compromisso do jornalista é com a verdade no relato dos fatos. Seu trabalho deve estar pautado na precisa apuração e correta divulgação de fatos e informações de interesse público. A atuação do jornalista não deve colocar em risco a integridade das fontes e dos colegas. É seu dever respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão. Além disso, ressalta o código, o jornalista não deve divulgar informações obtidas de maneira inadequada e deve deixar claro ao público eventuais manipulações feitas em imagens ou áudios (e – por que não? – dados).(4)

Muitos temas emergem quando o assunto é a ética no jornalismo de dados. Um deles, a precisão dos dados. Não é possível assumir, por princípio, que os dados estão sempre corretos. Nem sempre estão. Mas, afinal de contas, não é assim com qualquer outra fonte? Um jornalista que esteja apurando um fato ouve uma informação de um, outra de outro – e as confronta com terceiros para checar se está tudo correto antes da publicação. Nada diferente com os dados. O mesmo vale para a contextualização. Usar dados fora de contexto é um erro que pode causar problemas sérios. Não ocorre o mesmo quando partes de uma entrevista são publicadas de maneira descontextualizada? E o que dizer sobre a privacidade, outro tema sensível no jornalismo de dados? Em 2013, um jornal local de uma cidade do estado de Nova York causou comoção ao publicar, junto de uma reportagem sobre posse de armas, um mapa apontando nomes e endereços de cada pessoa que detinha uma pistola em casa.(5) Os dados eram públicos – foram obtidos por meio de um pedido de informação via lei de acesso. Em tese, poderiam mesmo ser utilizados como se quisesse. Mas é moralmente aceitável esse nível de exposição em um jornal? (Mais do que isso, o mapa realmente acrescentou algo à história, a ponto de justificar a publicação?)

Fora tudo isso, há ainda as especificidades do trabalho de edição das reportagens baseadas em dados. Editar, em última análise, é escolher – e não há escolha isenta ou completamente objetiva. Luiz Costa Pereira Junior mostra bem os efeitos da edição ao comparar as manchetes dos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e O Globo sobre os indicadores sociais divulgados pelo IBGE em 5 de abril de 2001. As reportagens  variaram entre “IBGE mostra como o país melhorou em 7 anos” e “País termina anos 90 tão desigual como começou”. Quem mentiu? Ninguém. “Cada um selecionou dados a seu prazer. Porque não é preciso mentir para manipular informação. Porque não é preciso uma deformação grosseira e explícita”, afirma o autor.(6)

Jennifer LaFleur, editora-sênior de jornalismo de dados na organização americana Center for Investigative Reporting, é uma veterana no assunto. Em uma palestra na conferência de 2014 da associação Investigative Reporters and Editors (IRE), ela listou alguns procedimentos mínimos que devem ser observados para assegurar a precisão dos dados. Veja:(7)

A importância da checagem

Leia os documentos e entenda o conteúdo de cada campo com dados. Saiba quantos registros deveria haver. Confira se há dados faltando, duplicados ou outros problemas – e cheque os cálculos e os valores totais. Pergunte-se: todas as possibilidades – estados, países, o que quer que seja – foram incluídas?

A importância da transparência

Ao publicar conjuntos de dados, descreva detalhadamente a metodologia adotada na coleta e na análise. Pode ser o caso de publicar um pequeno relatório com os resultados de análises mais complicadas. Peça a especialistas para revisá-las. Procure especialistas com especialidades e interesses variados. Dê espaço para que os leitores enviem feedback.

A importância das palavras

“Significativo”, “provável” e “correlação” têm significados específicos, e por isso devem ser usadas com sabedoria. Tome cuidado com correlações espúrias – aquelas que, embora existam, não explicam os fenômenos.

A importância da matemática

Corrija o valor do dinheiro no tempo (um real não compra o que costumava comprar no passado). Opte por taxas no lugar de números absolutos. Use medianas quando as médias estiverem distorcidas.

A importância de avaliar uma análise

Ouça seu instinto. Pergunte-se: o que mais poderia explicar os resultados? Cobri todos os buracos? Coletei todos os dados que deveria? A apuração jornalística está confirmando os resultados?

Até que ponto se pode – ou se deve – avançar com os dados no jornalismo é ainda um terreno pantanoso, como se pode perceber. Mas é preciso refletir e buscar referências de como agir. Para auxiliar empresas interessadas em desenvolver seus próprios códigos de ética com dados, a consultoria Accenture listou 12 princípios universais sobre o uso ético de dados. Eles são genéricos, como costumam ser os documentos desse tipo. Mas podem dar uma boa ideia do que é ou não aceitável ao se lidar com dados – inclusive no jornalismo. Confira:(8)

A prioridade deve ser respeitar as pessoas por trás dos dados

Quando uma ideia derivada dos dados puder impactar a condição humana, os danos potenciais a indivíduos e comunidades devem ser considerados primeiro

Atente aos usos secundários de conjuntos de dados

A gestão de dados muitas vezes se baseia em classificações como “público”, “privado” ou “proprietário” – mas o que de fato é feito com um conjunto de dados tem ainda mais consequências do que os tipos dos dados ou o contexto em que eles são coletados

A procedência dos dados e das ferramentas de análise molda as consequências dos seus usos

Todos os conjuntos de dados carregam uma história de decisões tomadas por pessoas

Garanta que suas medidas de privacidade e segurança correspondam às expectativas de privacidade e segurança dos envolvidos com os dados

Sempre siga a lei, mas entenda que frequentemente a lei representa apenas o mínimo

Num ambiente em que a transformação é o padrão, para se destacar é preciso definir estruturas de conformidade que superem o que a legislação exige

Tenha cuidado com a coleta de dados apenas para ter mais dados

Leve em consideração a possibilidade de que menos dados podem resultar tanto em melhores análises quanto em menores riscos

Dados podem ser uma ferramentas de inclusão e de exclusão

Nem todo mundo é igualmente impactado pelos processos de coleta e análise de dados

Tanto quanto for possível, explique métodos de análise e de marketing ao divulgar dados

Aumentar a transparência no processo de coleta pode reduzir riscos do fluxo dos dados pela cadeia que eles alimentam

Cientistas de dados devem expor suas qualificações, os limites de seu conhecimento, seguir padrões profissionais e defender a responsabilização dos pares

Afinal, o sucesso do campo da ciência de dados depende da confiança do público

Procure desenvolver práticas que incorporem transparência, responsabilidade e controle

A ética dos dados é um desafio que exige as melhores mentes do campo

Produtos e práticas de pesquisa devem estar sujeitos a revisão ética interna e, potencialmente, externa

Práticas internas de revisão pelos pares podem mitigar riscos. Um conselho externo pode contribuir significativamente para aumentar a confiança do público

Práticas de governança devem ser robustas, conhecidas por todos os membros da equipe e revisadas regularmente

Organizações envolvidas com dados demandam práticas éticas colaborativas, rotineiras e transparentes

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