Como encontrar dados?

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Quem trabalha com dados costuma dizer que uma pauta pode começar de duas formas: ou com perguntas que podem ser respondidas com dados ou com dados que merecem ser alvo de algumas perguntas. Em comum, nas duas situações é preciso encontrar dados. Mas como?

Um bom começo são os sites de órgãos governamentais, locais e nacionais, relacionados ao seu tema de cobertura. Seu ponto de partida pode ser o Portal Brasileiro de Dados Abertos, espécie de grande catálogo com os dados publicados pelos órgãos do governo. Há, lá, informação de todo tipo: dados da saúde suplementar, do sistema de transporte, de segurança pública, indicadores de educação, gastos governamentais… Para quem cobre finanças e negócios, também há dados interessantes – seja sobre a produção industrial, comércio ou serviços. Importante lembrar: este não é um site pronto. Ele está sendo construído aos poucos, então você pode não encontrar tudo o que procura de primeira. O Banco Central do Brasil, por exemplo, só lançou seu próprio portal de dados abertos em dezembro de 2016 (acesse-o aqui) – e as tabelas estão sendo gradualmente disponibilizadas também no Portal Brasileiro.

Para encontrar dados mais específicos, é importante, em primeiro lugar, estudar seus temas de interesse. Se você precisa de informações para reportagens sobre o mercado de ações, o caminho será um. Se começou a cobrir as empresas do setor de mineração e siderurgia, será outro. Quem já escreveu sobre um desses assuntos, provavelmente teve contato, mínimo que seja, com as companhias e entidades relacionadas a ele. Para quem está chegando agora, a sugestão é reservar algumas boas horas para a aclimatação. Vale a pena ler as matérias publicadas nos últimos meses sobre o assunto, tanto em veículos de informação geral quanto nos especializados. Faça uma lista das fontes de informação mencionadas – e, depois, navegue nos sites de cada uma (que tiver um, é claro!). Você vai se surpreender com a quantidade de bases de dados estruturados, prontas para serem usadas, que existem!

Consultorias e associações de classe costumam ser ótimos arcabouços de dados. Se você precisa escrever sobre empresas exportadoras, o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços tem volumes e mais volumes de dados consolidados sobre comércio exterior – e informações detalhadas podem ser obtidas no sistema Aliceweb, mantido pelo governo. As agências reguladoras são outra boa fonte de dados. O site da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), por exemplo, traz uma infinidade de levantamentos sobre o setor aéreo – dá até para ter acesso aos balanços das empresas aéreas. Já a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) tem várias páginas de dados que vão dos resultados dos leilões de energia até indicadores de qualidade dos serviços das companhias de energia. Você ainda poderá encontrar uma infinidade de informações nos sites do Banco Central, da Comissão de Valores Mobiliários, da bolsa de valores (a BM&FBovespa), do Ipeadata e de tantas outras entidades.

E se você estiver escrevendo sobre uma empresa específica, ela é a principal fonte de informação sobre si mesma. Os balanços trimestrais e anuais embutem uma enorme quantidade de dados sobre as companhias. Esses balanços, muitas vezes, são auditados – o que significa que foram “revisados” por uma consultoria externa, o que agrega mais credibilidade aos números. Em geral, costumam ser confiáveis. (Vamos falar mais sobre esse assunto na seção Negócios e empresas)

Se você já sabe quais são os dados de que precisa, o ideal é tentar encontrá-los diretamente com quem os detém, sugere o Guia rápido para o trabalho de campo. É possível que você não consiga obtê-los de imediato – e nem sempre as assessorias de imprensa estarão dispostas a ajudar. “Se consigo chegar à pessoa que cuida dos dados naquela instituição, posso questioná-la sobre as informações que ela tem e em que formato. Posso descobrir antes o que preciso fazer para solicitar as informações e ser bem sucedido”. Nem sempre é simples chegar a essa pessoa, mas frequentemente é possível.(1)

Agora, se ainda estiver numa fase mais exploratória, aquele momento em que você procura descobrir o que existe disponível sobre determinado assunto, nada melhor do que ferramentas de busca – como o Google – para ajudá-lo. Algumas sugestões extraídas do Manual de Jornalismo de Dados para ajudá-lo nesse trabalho são as seguintes:

  • Quando quiser pesquisar o que existe sobre determinado assunto em um site específico, acrescente o comando “site:endereçodapagina” à sua busca. Assim, o Google retornará apenas resultados encontrados dentro daquele site. “Isso é extremamente útil quando você estiver procurando por informações que os proprietários de um domínio tornaram públicas mas não tiveram interesse em divulgar”. (Pete Warden)(2)
  • Se estiver buscando dados em um formato específico, você pode especificá-lo. No Google, é possível buscar apenas planilhas (inserindo “filetype:XLS” ou “filetype:CSV” no campo de busca), dados geocodificados (“filetype:shp”) ou arquivos PDF (“filetype:pdf”). (Brian Boyer, John Keefe, Friedrich Lindenberg, Jane Park, Chrys Wu)(3)
  • Também é possível explorar dados em lugares onde eles estejam disponíveis em massa. Fazendo uma busca por “site:orgao.gov.br download”, o Google poderá retornar uma lista de materiais disponíveis para download no site em questão.(Brian Boyer, John Keefe, Friedrich Lindenberg, Jane Park, Chrys Wu)(4)

Bônus: O Google lançou, em 2015, uma iniciativa com o objetivo de auxiliar os jornalistas produzir informação de qualidade, que seja acessível a cada vez mais leitores. O Google News Lab é um site dedicado a ensinar os profissionais a usar as mais variadas soluções da empresa – Search, YouTube, Maps, Alerts, Fusion Tables… – para fazer jornalismo. Muitas delas podem ser extremamente úteis para ajudá-lo a construir suas próprias bases de dados. Vale a pena gastar uns bons minutos estudando o material. Além do que há lá no site, você também pode aproveitar que o seminário Google Day @ Poynter: Research, Mapping and Audience Engagement está disponível gratuitamente no site da Poynter News University – um dos principais programas de treinamento online do mundo para jornalistas – para conhecer mais detalhes dessas ferramentas.

Pesquisas em sites como o Google podem retornar resultados muito bons – e também outros bem ruins. No jornalismo, é bom lembrar, exatidão é um valor fundamental. Ficou com dúvidas sobre a precisão de um dado? Cheque e recheque, quantas vezes forem necessárias. Não tem dúvida alguma? Ainda assim, cheque e recheque. Tenha como ponto de partida as dicas de Chris Roush, professor da Universidade da Carolina do Norte e instrutor do curso S&P Global Financial Data Journalism, sobre o uso de bases de dados online para cobrir negócios e economia:(5)

Certifique-se de que os sites que utilizar sejam de fontes confiáveis, como agências governamentais;

Evite sites que cobrem pelo acesso à informação;

Tente checar a informação com outra fonte, como a companhia ou a pessoa a que ela se refere;

O Google é legal, mas não vai encontrar tudo o que você estiver procurando. Ache as próprias bases de dados;

Use múltiplas bases de dados quando pesquisar por uma companhia. Não confie apenas em uma, pois ela não te contará a história inteira;

Entenda que as bases de dados são apenas parte da reportagem. Você ainda precisa entrevistar pessoas e analisar os fatos para os seus leitores;

Uma vez que obtenha dados sobre uma companhia ou uma pessoa, como um endereço ou telefone, faça novas pesquisas com ferramentas de busca diferente para ver o que mais se pode encontrar;

Algumas bases de dados online permitirão a você configurar alertas para quando novos dados forem acrescentados. Aproveite essas ferramentas.

Caso você tenha muita dificuldade de encontrar dados que você sabe que existem, é possível fazer um pedido de acesso à informação pública para os órgãos submetidos à Lei de Acesso à Informação. Quer saber do que se trata? Em parceria com a Escola de Dados, Siga os Números dispõe de uma seção exclusivamente dedicada ao assunto. Acesse-a aqui.

E antes de passar para a próxima seção, tire um tempinho para conhecer a experiência prática de quem usa dados com regularidade para escrever sobre finanças e negócios. Em depoimento a Siga os Números, as jornalistas Thais Folego e Ana Paula Ribeiro contam como fazem isso praticamente todos os dias:

Repórter há dez anos, já cobri um pouco de tudo: seguros, fundos de pensão, fundos de investimentos, agências de rating, bancos, investimentos pessoais… Uma fonte diária para jornalistas como eu é o site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) – que já foi reformulado algumas vezes, mas continua parecendo um labirinto. Sempre acompanho a área de fatos relevantes de fundos de investimentos. Já encontrei muitas pautas e escrevi reportagens exclusivas a partir de dados colhidos nessa área. Uma delas, publicada em 2015, nasceu dali. Observei que alguns fundos estavam reportando desvalorização das cotas devido aos pedidos de recuperação judicial de empresas em que investiam. Uma fonte, meses antes, já havia alertado para esse movimento que, hora ou outra, afetaria o mercado de fundos. Coletei dados dos fundos, busquei números das recuperações judiciais em curso no país, entrevistei gestores e executivos de agência de rating – e assim surgiu a matéria. (Thais Folego, repórter freelance)(6)


Saber como consultar bases de dados econômicos ajuda não só a checar eventuais informações para uma reportagem, mas também a construir uma pauta a partir delas. Autarquias públicas e sites de empresas privadas possuem informações confiáveis e de fácil acesso que atendem bem a esse objetivo. Uso essas fontes de dados quase que diariamente para escrever sobre finanças e macroeconomia. No site da BM&FBovespa, uma seção importante é a de Dados de Mercado, com um histórico razoavelmente grande de informações sobre o mercado acionário – número de empresas com ações negociadas na bolsa, performance dos principais índices, volumes de negociação e perfil dos investidores. O site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também é obrigatório. Nele, é possível verificar todos os documentos públicos de uma empresa, como fatos relevantes e balanços. Nunca escrevo uma reportagem sobre uma empresa sem verificar os balanços publicados na CVM – muitas vezes, os releases divulgados pelas assessorias de imprensa destacam apenas parte das informações ou apenas os dados “ajustados”. No site do Banco Central, também há uma infinidade de dados – mas vale a pena analisá-los com alguma malícia. Nas bases sobre as Contas Externas, é possível saber como andam os gastos dos brasileiros com cartão de crédito, viagens e transporte no exterior. Se apenas o primeiro cresce significativamente, pode ser um sinal de avanço de compras online, e não necessariamente de mais compras em viagens ao exterior. (Ana Paula Ribeiro, repórter do jornal O Globo)(7)


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