Os dados no jornalismo econômico

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Os termos “economia”, “números”, “dados” e “análises” andam de mãos dadas. Numa redação, são também diretamente associadas aos cadernos de economia – e não é de hoje. Conforme as estatísticas passaram a ser incorporadas nas notícias dos jornais, em fins do século XIX, seja na forma de figuras, de listas ou de tabelas, tanto mais elas ficaram presentes na cobertura econômica. “Muito antes dos sistemas de dados das bolsas de valores se tornarem eletrônicos, os jornais publicavam os preços das ações para os investidores”, afirma Alexander Benjamin Howard. A Dow Jones & Company começou a publicar cotações de ações em 1884 – e continua fazendo o mesmo no The Wall Street Journal, um dos mais conhecidos jornais financeiros do mundo.(1)

Hoje, numa época em que informações de todo tipo ficam disponíveis online, gastar páginas inteiras para imprimir uma lista com as ações negociadas na bolsa e suas cotações soa um grande desperdício – será mesmo que alguém ainda para para ler tamanha numeralha, quando poderia facilmente pesquisar tudo na internet? Mesmo atendendo ao gosto de alguns veteranos, reproduzir os dados é pouco diante das possibilidades de uso deles para fazer bom jornalismo de finanças e negócios.

“Os repórteres têm um tesouro de bancos de dados a partir dos quais extrair informações para escrever reportagens”, diz Chris Roush, professor da Universidade da Carolina do Norte e instrutor do curso S&P Global Financial Data Journalism.(2) “A internet tornou possível que os jornalistas obtivessem grande parte da informação de que precisam para escrever sobre um empreendedor ou uma empresa acessando alguns sites, sem sair de sua mesa na redação”.

Já falamos antes que conhecer dados e saber operá-los é habilidade fundamental para jornalistas – em especial, os de economia. Eles precisam, afinal de contas, conseguir interpretar desde as informações financeiras divulgadas por uma empresa até os componentes do déficit nas contas do governo. Mesmo assim, não são poucos os repórteres que não se arriscam com os números – mesmo nas redações especializadas. É muito comum encontrar estruturas como a que, no jornal Valor Econômico, foi batizada de Valor Data: uma equipe de profissionais não jornalistas que coletam dados e montam bases publicadas periodicamente no papel. Repórteres menos familiarizados com as planilhas acabam precisando se render a eles para obter determinadas séries de informações ou análises para suas reportagens. Como não lidam diretamente com os dados, deixam de aproveitar a oportunidade de ter boas ideias ao estudar a evolução e os padrões dos números. (E ainda precisam entrar na fila, esperando para serem atendidos quando der!)

Se alguns jornalistas (mesmo especializados) ainda penam para trabalhar com dados, há uma série de empresas jornalísticas que descobriram como fazer dinheiro com eles. A Bloomberg é uma delas. Operando cerca de 300 mil terminais por assinatura, ela compila e fornece dados financeiros – e notícias também – aos clientes (a maior parte deles, profissionais do mercado financeiro). “Cada terminal vem com um teclado com um código de cores e até 30 mil ações para pesquisar, comparar, analisar e ajudar a decidir o que fazer em seguida”, explica Mirko Lorenz.(3)

O conglomerado de mídia canadense Thomson Reuters faz a mesma coisa – há duas décadas, decidiu sair do negócio de jornais e se focou nas informações financeiras. “Eles cresceram com base em serviços de informação, com o objetivo de fornecer uma perspectiva mais profunda a clientes de uma série de áreas”, diz Lorenz. Já a conhecida revista britânica The Economist, especializada na cobertura de economia, há alguns anos criou uma empresa de consultoria, elaboração de relatórios sobre tendências relevantes e previsões para quase todos os países do mundo chamada Economist Intelligence Unit – que, aliás, se tornou fonte de informação de milhares de outros veículos de comunicação.(4)

O exemplo brasileiro desse tipo é a Agência Estado. Agência de notícias do grupo O Estado de S. Paulo, foi criada nos anos 1970 com o objetivo de vender as notícias produzidas pelo jornal para veículos de outros estados. Em 1991, deu uma guinada nas suas atividades ao comprar a Broadcast, empresa que, na época, se resumia a vender cotações das bolsas de valores.(5) Em vez de ter apenas a mídia como cliente, passou a ter também os operadores do mercado financeiro, para quem fornece – ainda hoje – dados e notícias por meio de um terminal por assinatura (mesmo modelo adotado pela Bloomberg e pela Thomson Reuters). O jornal Valor Econômico seguiu o mesmo caminho e estreou um serviço semelhante, o Valor Pro, em 2013. Na imagem abaixo, uma visão de como funcionam os terminais da Broadcast:

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Clique na imagem para abri-la e ver as informações em detalhes (Fonte: AE)

Há uma série de iniciativas e projetos jornalísticos baseados em dados na cobertura de economia. Alguns datam de um tempo em que esse campo não levava o nome de “jornalismo de dados”. Há mais de 40 anos a revista Exame produz um anuário especial batizado Melhores & Maiores, em que as 1.000 maiores empresas do Brasil têm seus números dissecados. Outros projetos novos surgem da reciclagem de ideias antigas. A Bloomberg, por exemplo, criou em 2012 seu Índice de Bilionários, um ranking das pessoas mais ricas do mundo – coisa que a revista Forbes já fazia anualmente há três décadas. Inovou aproveitando a tecnologia para montar uma lista dinâmica, atualizada diariamente segundo os movimentos do mercado e da economia (e logo foi seguida pela própria Forbes, que também passou a atualizar sua lista diariamente). E há ainda iniciativas que partem do zero. O site de notícias de economia e negócios Quartz, criado em 2012, pertente à Atlantic Media, a mesma empresa que edita a revista The Atlantic. Fortemente engajado com as ferramentas do jornalismo de dados, tem apostado em apresentações curiosas para temas usualmente considerados “chatos”. Quer um exemplo? Veja aqui o especial sobre os negócios natalinos desenvolvido pelo Quartz, todo baseado nos tradicionais Calendários do Advento.


O texto de economia (e o texto com dados)

Os textos jornalísticos de economia têm a má fama de serem difíceis de compreender e entediantes de ler. É preciso admitir que isso não acontece sem razão. Esse talvez seja o assunto que mais demande dedicação dos jornalistas na hora de colocar a apuração no papel. É necessário explicar os fenômenos de forma que façam sentido não somente para os entendidos, como também (e principalmente!) para as pessoas em geral. Gente como a gente. Nem sempre é fácil fazer isso sob a pressão do relógio, como é a situação da maioria dos profissionais das redações mundo afora. Mas os jornalistas precisam ter o bom texto como uma referência, uma aspiração – e uma inspiração também. Principalmente quando se trabalha com dados!

Siga os Números fez uma seleção de dicas para escrever um bom texto de finanças e negócios. E também com outras sugestões de como escrever direito usando dados. As fontes foram tanto obras clássicas sobre jornalismo econômico quanto novos materiais desenvolvidos sobre jornalismo de dados. Aí vai:

  • Textos chatos, burocráticos e herméticos levarão os leitores a simplesmente passar ao largo. Se, ao invés disso, os textos forem rápidos, descritivos, atentos, competentes, emotivos e apaixonados, certamente serão lidos. (Sidnei Basile)(6)
  • Você perderá leitores com números e estatísticas não explicados em contexto. Inclua números que forem relevantes para a reportagem. (Pamela Yip)(7)
  • Não use mais do que dois ou três números por parágrafo. Não escreva mais do que dois parágrafos em sequência com muitos números. (David Donald)(8)
  • Arredonde os números. Prefira transformar números muito grandes em proporções, que são menores e mais simples de entender. (David Donald)(9)
  • Seu dever é escrever para o leitor. Você encontrará profissionais financeiros que vão falar o jargão do mercado, mas peça para que traduzam até que consiga entender. Se, ainda assim, não compreender o que eles dizem, pergunte de novo e de novo – caso contrário, como será capaz de escrever um bom texto? (Pamela Yip)(10)
  • O empresário tem um vocabulário próprio, o economista usa expressões da ciência econômica, o ministro fala no linguajar escorregadio do governo. O jornalista deve ter preocupação e preparo para interpretar o que ouviu e, ao escrever, traduzir tudo em linguagem capaz de ser entendida por qualquer um, do porteiro do prédio ao mais importante empresário do país. (Suely Caldas)(11)
  • Escrever sobre finanças e investimentos não é fazer matérias sobre cada novo produto ou serviço lançado por um banco – acredite, a tentativa de vender pautas desse tipo é constante! E um repórter de finanças e investimentos também não é um consultor financeiro. Dar conselhos não é simplesmente sugerir algo a partir dos números – é preciso avaliar os objetivos de cada um, coisa que apenas um planejador profissional pode fazer. (Pamela Yip)(12)
  • Os dados que você encontrar são apenas mais uma fonte para entrevistar. Suas descobertas devem levá-lo a fazer mais perguntas, achar exemplos e, verdadeiramente, construir uma narrativa. (Ellen Gabler)(13)
  • Conte sua história por meio de personagens e exemplos. É disso que as pessoas lembram. Encontre exemplos que expliquem sua premissa. Mas esforce-se, pois exemplos ruins podem estragar boas histórias. (Ellen Gabler)(14)
  • Diga o que não foi possível saber com os dados que você encontrou. Os dados têm limites – não tenha receio de mostrar isso no texto. Transparência assegura credibilidade. (Ellen Gabler)(15)

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