Como encontrar pautas nos dados?

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“Ainda estou para conhecer uma planilha que não tenha uma história para contar”, diz Paul Bradshaw.(1) É possível encontrar boas pautas em uma planilha, mesmo ela sendo, muitas vezes, um emaranhado aparentemente indecifrável de dados? Sim. Mas é preciso fazer as perguntas certas a ela.

Como qualquer outra fonte de um jornalista, os dados também precisam ser entrevistados para que “digam” alguma coisa. Encare os números de frente, dê asas à sua curiosidade – e faça perguntas, como sempre. “As melhores perguntas são as mais antigas: este número é mesmo importante? De onde vem?”, sugere o jornalista Michael Blastland. “São formas de refletir sobre os dados: o que fica de lado quando olhamos apenas um único número, as complicações da vida real, outras comparações, agrupamentos ou divisões geográficas que podem ser feitos. Em resumo, o contexto”.(2)

No jornalismo econômico, não é diferente. “Procure tendências nos dados. Uma reportagem não é os números, mas o que os números te dizem que está acontecendo”, diz Chris Roush, professor da Universidade da Carolina do Norte e instrutor do curso S&P Global Financial Data Journalism.(3) É o mesmo que afirma o jornalista Steve Doig, vencedor do Prêmio Pulitzer na década de 1990 e hoje professor da Universidade do Arizona: “O ponto de encontrar padrões é que você quer ir além de apenas usar exemplos para contar suas histórias. Na verdade, quer ser capaz de incluir evidências nela, e é isso o que a análise de dados pode fazer por você”.(4)

Um bom começo para tirar pautas interessantes de “meras” tabelas pode ser aplicar essa lista de questões básicas compiladas por Bradshaw:(5)

Quanto determinado item mudou?

Onde ou com quem ocorreu a maior mudança? E a menor?

Que empresa ou que pessoa ganhou mais dinheiro?

Qual é o padrão, e quem ou o que destoa mais do padrão?

Com que frequência determinado nome aparece? E onde?

Quanto foi gasto?

Entendi bem as coisas?

Que informações estão faltando?

O que é incomum nesses dados?

Para onde deveria olhar?

Você possivelmente não enxergará uma pauta somente batendo os olhos sobre um amontoado de dados. Será preciso trabalhá-los com uma certa matemática – que, aliás, é o assunto da próxima seção (As três operações fundamentais da matemática para jornalistas). Mesmo só o básico do básico poderá ajudá-lo a fazer melhores entrevistas com suas planilhas. Nesse material desenvolvido pela Escola de Dados há exemplos de inúmeras perguntas que podem ser respondidas com uma única tabela contendo números sobre os gastos de diferentes países com saúde.

Às vezes, poderá ser mais fácil encontrar uma boa história transformando os dados de uma planilha em uma imagem – e, então, você será desafiado a entrevistar um gráfico. Vai ficar mais claro depois de estudarmos a figura abaixo:

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Clique na imagem para abri-la e ver as informações em detalhes

O gráfico retrata a oscilação das ações da Mundial S/A, uma das poucas empresas brasileiras centenárias. Fabricante de alicates, tesouras e facas, a companhia tem papéis listadas na bolsa de valores – a BM&FBovespa – há anos, mas seu desempenho tímido nunca chamou a atenção no mercado. Até que 2011 chegou. A partir de abril, uma movimentação nada usual começou a acontecer. E em questão de poucos meses o preço da ação havia disparado de maneira impressionante, sendo multiplicado por quase 30.

A mudança de padrão do gráfico das ações da Mundial S/A não passou despercebida – primeiro pela própria bolsa e pelas mesas de operações de bancos e corretoras, e em seguida pelos jornalistas. Não seria possível que isso acontecesse sem uma razão muito forte por trás. Convocada pela BM&FBovespa a explicar ao mercado o que estava ocorrendo, a empresa tentou se justificar acusando um ataque especulativo em curso. Na sequência, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão regulador do mercado, entrou no jogo. Abriu uma investigação para apurar se o que estava acontecendo era um caso de manipulação das cotações. O caso logo ficou conhecido como a “bolha do alicate” e se revelou uma das maiores fraudes recentes do mercado acionário no Brasil. Em 2016,  Michael Ceitlin, controlador e diretor presidente da empresa, e Rafael Ferri, operador de bolsa, se tornaram os protagonistas da primeira condenação penal por crime de manipulação de mercado do Brasil.

Como você teria entrevistado o gráfico acima na tentativa de extrair dele tantas informações quanto possível para fundamentar uma pauta? Algumas perguntas poderiam ser: Qual vinha sendo o comportamento usual da ação da Mundial S/A? Quando as negociações começaram a mudar? Por quanto tempo durou a movimentação atípica? Qual foi a magnitude da alta (e da queda seguinte) dos papéis? Houve alguma situação semelhante nos anos anteriores? E para complementar as perguntas ao gráfico, outras perguntas que exigiriam procurar informações adicionais: Como ficou o comportamento do mercado em geral durante o mesmo período? A empresa divulgou alguma informação relevante, que pudesse justificar tamanha oscilação? A CVM fez algum alerta relacionado à Mundial S/A? Como estão os balanços da empresa? O que dizem suas fontes nos bancos e corretoras a respeito desse caso?


Siga adiante:
As três operações fundamentais da matemática para jornalistas

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